marco do “boom” do sertanejo nos anos 2000
É difícil falar de música sertaneja hoje em dia. O mercado fonográfico anda abarrotado de duplas que diariamente são lançadas com músicas que seguem preceitos simples, que não fogem duma fórmula antiga: imagem + metáforas em excesso, (meteoro da paixão, por exemplo). E, com um olhar despido de preconceitos, é possível admitir que a fórmula funciona e diverte, mas é rasa e enjoativa.
Diante disso, os mais ardis críticos da música sertaneja contemporânea torcem o nariz para toda e qualquer produção do tipo, sem conseguir lançar um olhar consciente sobre ela e deixando prevalecer o senso comum. Esquecem-se, entretanto, que em todos os gêneros musicais há a produção massificada de música rasa, mas que existe qualidade, em melodia e letra também no sertanejo.
Depois dessa introdução, apresento o álbum que foi um dos grandes responsáveis pelo revival da música sertaneja nos anos 2000, o Acústico Ao Vivo da dupla Bruno e Marrone, de 2001. Se você odeia dor-de-cotovelo, guarânias e pessoas que dormem em praças públicas sugiro que pare por aqui.
A dupla já havia lançado quatro álbuns antes desse Acústico, mas foi somente por volta do lançamento deste que conseguiram um destaque nacional. Não por menos: a música sertaneja andava repleta de guitarras elétricas e sintetizadores, faltava voz e violão. Acústico Ao Vivo, não só traz um trabalho recheado de músicas que viriam a se tornar clássicos da dupla, como também eleva ao máximo, reconquistando o espaço na mídia que vinha sendo tomado por outros ritmos. Temos aqui música sertaneja que abandona o bucolismo à lá Tonico e Tinoco, mas que fala de desilusões, ciúme e amor simples e puro, é claro.
O álbum começa com a agitada Feriado Nacional. Entre todas é a que menos reflete o espírito do disco. É divertida e patriota, exalta as maravilhas do nosso país, brinca com a vontade que muitos têm de ir pro exterior, mas não passa disso. Dormi na praça é melosa, virou hit instantâneo e foi uma das músicas mais escutadas no ano. Dispensa comentários.
Logo vem Amor de Carnaval, e onde a beleza do CD verdadeiramente começa. A viola casa perfeitamente com a melodia, a letra é bonita e original e encanta a quem ouve. Meu jeito de sentir é lenta, dramática e bonita, só por ser. É o sentimento simples sendo cantado melancolicamente, é quase uma carta de amor musicada. Depois somos brindados com um cover de João Mineiro e Marciano, a lindíssima Seu amor ainda é tudo. Se você nunca escutou essa música, prepare o coração. Acertadamente encaixada no álbum, disfarça-se entre as demais canções, e passa desapercebidamente como sendo de autoria da dupla.
Um bom perdedor merece destaque. Talvez seja a canção mais bonita do disco, e mostra porque Bruno e Marrone se destacaram e inspiraram o boom de novas duplas sertanejas no país. É linda. Fala de um relacionamento que acabou, e o quão difícil pode ser aceitar isso. “Sim, é claro, eu esperava te convencer, mas é bom deixar a água correr. O que importa agora as palavras que eu não pude dizer?”. O álbum continua em seu ápice, com a não menos bonita Vida vazia, que pega carona na música anterior e mantém todo o clima. Programa de fim de semana é mais leve e tira um pouco da euforia das duas músicas anteriores. Segue um dos mais bonitos pout-pourri de boleros, com Tenho ciúme de tudo, A dama de vermelho e brigas. Escolhidas a dedo, ficam, assim como Seu amor ainda é tudo, devidamente marcadas no álbum. Fechamos com Por um minuto. Escute, ainda que você não seja o maior entusiasta da música sertaneja.
Assim, Acústico Ao Vivo mostra-se como um dos mais importantes trabalhos do sertanejo nos anos 2000, inspirou várias duplas e deu uma nova cara para o gênero. É um disco para cantar junto cada música, com um copo de cerveja do lado e, principalmente, um coração que já amou, se iludiu ou dormiu na praça.

Sem dúvida esse álbum foi de extrema importância para estabelecer o sertanejo como um dos gêneros musicais influentes da década. O mais impressionante foi a regularidade que a dupla atingiu nos anos seguintes, com o álbum inevitável, de 2003, que vendeu 1,5 milhão de cópias, que foi lançado por outra gravadora, a BMG. To no aguardo da análise do álbum Inevitável, que tem "Deixa", "Trânsito Parado", "Vai dar namoro" e tantos outros sucessos.
ResponderExcluirPara os amantes e não-amantes do sertanejo, é um álbum inesquecível. Minto se disser que não fiquei com vontade de ouvir depois de um lindo trabalho de descrição e encantos por um (quase) radialista profissional (mas que não o deixou de ser neste post: profissional). Recomendo para churrascos e feijoadas (com som ao vivo ou não).
ResponderExcluirSem dúvida eu gostei do post! ;D
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