ART BRUT – BANG, BANG, ROCK AND ROLL
O indie mais declamado o possível
A Arte Bruta foi um conceito artístico desenvolvido pelo pintor Dubuffet para designar a arte livre de quaisquer influências, estilos oficiais e, principalmente, das imposições do mercado de arte. Dubuffet considerava, então, que a arte bruta, aquela em seu estado mais primitivo, poderia vir desses criadores que estavam fora do meio artístico, como doentes mentais, mendigos e tipos assim.
O Art Brut, banda formada em 2003, parece querer se apropriar de alguns desses conceitos, mas não deixa de se afastar de influências muito próximas do seu tempo. O indie rock nesse álbum de estréia, intitulado Bang, Bang, Rock & Roll, flerta um pouco com o dos seus contemporâneos do Franz Ferdinand, mas com um estilo um tanto próprio. É certo que a banda bebeu na fonte do Talking Heads até não poderem mais, mas transgridem a simples cópia e propõem um estilo muito próprio.
A levada é mais punk, e as letras exploram um mundo semelhante do que os nerds do Weezer estão acostumados a cantar. I formed a band, a primeira canção do álbum, chega a soar meio estúpida, mas a ironia impera e acaba traduzindo um sentimento de todo garoto que queria ter uma banda.
Apesar do som notadamente próprio, o destaque do Art Brut está, sem dúvidas, no vocal de Eddie Argos. As letras são praticamente declamadas, cada sílaba é aproveitada pela voz desleixada do cantor, tornando as músicas mais um relato pessoal que canções num disco. A prova disso está na melhor música do álbum, Emily Kane. É uma música sobre um relacionamento acabado, onde o eu - lírico simplesmente não consegue esquecer a ex, e até conta os dias desde que terminaram. A canção seria comum fosse outra banda, mas no vocal de Argos é uma confissão intimista e que causa identificação. O mesmo pode ser dito sobre a canção seguinte, Rusted Guns of Milan, que nitidamente fala sobre disfunção erétil. A letra quase declamada e repetitiva dão o tom necessário para falar desse tema, que soa engraçado e desesperador na música, ao mesmo tempo.
Apesar disso, o álbum todo vê seus pontos fortes em três músicas, tornando as demais esquecíveis. Assim o Art Brut concebeu seu álbum de estréia, cheio de inventividades, mas que não chega a ter uma estabilidade. Não vale a pena o álbum inteiro, apenas para aqueles que se interessam muito pelo gênero. Recomendo apenas Emily Kane, Rusted Guns Of Milan e Moving to L.A, que são os pontos altos do disco.

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